(Nota: esta é uma tradução de um artigo no blog em espanhol.)

Para Adlair Cerecedo-Méndez, o trabalho com o LibreOffice começou como resposta a uma necessidade específica: ajudar o governo mexicano a obter um pacote de escritório adaptado a instituições públicas. Com o tempo, esse trabalho técnico também se tornou uma experiência de colaboração com a comunidade internacional do LibreOffice e uma oportunidade de promover o software livre no setor público.

Embora Adlair já usasse o LibreOffice desde os tempos do OpenOffice, seu envolvimento profissional com o projeto tomou forma por volta de 2020, quando foi convidado a colaborar no desenvolvimento de um pacote de escritório governamental. A iniciativa fazia parte de uma visão mais ampla: reduzir a dependência de soluções proprietárias, fazer uso de software livre e fortalecer a capacidade tecnológica do próprio Estado.

Partir de uma plataforma existente

O Office GOBMX não partiu necessariamente do LibreOffice. No início, foi considerada a possibilidade de criar um pacote do zero, mas a análise técnica revelou a dimensão do desafio: desenvolver, manter e evoluir um aplicativo desse tipo exigiria tempo e recursos consideráveis.

O LibreOffice oferecia uma base madura, multiplataforma e de código aberto, sustentada por uma comunidade internacional. Adaptá-lo às necessidades do governo fazia mais sentido do que reinventar um pacote de escritório inteiro. Foi assim que nasceu a abordagem do Office GOBMX: começar pela tecnologia existente e adaptá-la às necessidades das instituições públicas.

O objetivo incluía reduzir custos de licenciamento, mas também envolvia avançar rumo a uma maior autonomia tecnológica. Para Adlair, soberania não significa trocar de ferramentas da noite para o dia. É um processo gradual que permite ao Estado decidir quais tecnologias usa, entendê-las, modificá-las e mantê-las com conhecimento próprio.

Migração também é um processo humano

A implementação trouxe desafios de compatibilidade com documentos, macros, formatos e processos construídos ao longo de muitos anos em torno de outras ferramentas. Também foi necessário determinar o que poderia funcionar como estava e o que exigiria adaptação ou reimplementação.

Mas o maior desafio, lembra Adlair, foi a resistência à mudança. Ferramentas de escritório fazem parte da rotina diária de muitas pessoas, e uma migração pode desorganizar hábitos e procedimentos familiares. Por isso, simplesmente instalar o software não basta: é preciso analisar processos, testar compatibilidade, migrar documentos, treinar usuários e oferecer orientação e suporte.

A convivência com o Microsoft Office também fez parte da transição. Na administração pública, documentos circulam entre instituições governamentais, cidadãos, empresas e fornecedores. Embora o LibreOffice ofereça interoperabilidade com formatos amplamente usados, alguns documentos complexos, modelos e macros exigem atenção especial. A estratégia, explica Adlair, deve ser gradual: promover formatos abertos como o ODF sem interromper o trabalho nem perder a capacidade de trocar arquivos com o ecossistema existente.

Adaptar, auditar e aprender

O software de código aberto permitiu desenvolver componentes para necessidades institucionais específicas. Um exemplo é um validador de documentos criado para analisar elementos internos em arquivos gerados com ferramentas da Microsoft e obter evidências técnicas sobre as informações que continham. Em um contexto governamental, observa Adlair, é importante entender esses elementos antes de presumir que sejam irrelevantes ou sem implicações.

A capacidade de trabalhar com o código também foi valiosa ao lidar com processos legados, como macros antigas e fluxos de trabalho associados ao Microsoft Access. Em vez de aceitar as limitações de uma ferramenta fechada como inevitáveis, a equipe pôde tratar esses casos sob a ótica da adaptação e da migração.

Ao mesmo tempo, a experiência do Office GOBMX oferece lições que podem ser úteis a outras administrações públicas. Embora cada governo tenha necessidades diferentes, muitos dos desafios são recorrentes: dependência tecnológica, documentos legados, interoperabilidade, treinamento e resistência à mudança. A metodologia — do planejamento e da análise de compatibilidade à implementação e ao suporte contínuo — pode servir de referência útil.

Da experiência técnica à comunidade

A relação de Adlair com a comunidade internacional do LibreOffice se fortaleceu em 2023, quando ele participou da Conferência Latino-Americana do LibreOffice na Cidade do México. Lá, conheceu membros da comunidade e passou a entender melhor não apenas o software, mas também a colaboração que o sustenta.

De sua perspectiva como membro da The Document Foundation, essa conexão é especialmente valiosa: pessoas que implementam o LibreOffice em ambientes governamentais podem compartilhar casos reais, necessidades de interoperabilidade e lições aprendidas em implantações de grande escala. Em contrapartida, a comunidade oferece conhecimento e um espaço compartilhado para contribuir com o desenvolvimento do projeto.

Para Adlair, a compatibilidade contínua com documentos do Microsoft Office continuará sendo importante — não como objetivo de dependência permanente, mas como forma de reduzir as barreiras à adoção. Uma interoperabilidade melhor facilita a transição e permite que as organizações avancem gradualmente rumo a formatos abertos como o ODF.

Nesse sentido, o Office GOBMX é mais do que a troca de um pacote de escritório por outro. É uma experiência que mostra como instituições públicas podem adaptar tecnologias abertas, preservar conhecimento técnico e construir capacidade própria. Adlair continua promovendo sua adoção entre órgãos governamentais, na esperança de que essas lições também cheguem a governos estaduais e outras instituições em todo o país.